Era um corpo jovem onde um verme verde e ondulante caminhava nas entranhas. Coisa estranha assim, ninguém via, mas eles se habitavam desde os tempos de criança. Inseparáveis, um carregava o outro sem saber e o outro nunca soube como entrara naquele paraíso. Viviam sem juízo, os dois, um comendo o outro por dentro noite e dia e o outro engolindo o alimento do qual o verme sobrevivia.

Até que numa hora morta de uma noite insana o verme, gordo e nutrido, botou um ovo, um colosso, no meio dos miolos da cabeça do outro corpo que doeu. E morreu, logo depois, de tanto esforço, enquanto a cabeça do outro inchava, bem no centro, sem noção do monstro que o ovo trazia por dentro. E o monstro cresceu horrível mamando a placenta disponível enquanto o ovo era chocado pelo sangue quente que a sua volta circulava. E uma vez forte e faminto o monstro eclodiu, trincou o ovo e comeu os pedaços e esticou-se todo, ainda infantil, comprimindo os espaços da cabeça do outro que já andava enlouquecendo.

E era um monstro medonho, preto e marrom, focinho redondo, furado, armado de dentes enormes, dois olhos vermelhos, orelhas pontudas, barriga peluda, um rabo nascente com penas disformes, duas pernas de galo com cascos de burro, asas gigantes com unhas nas pontas e olhar fulminante de animal feroz.

Começou por comer qualquer parte do corpo hospedeiro parando, às vezes, quando percebia, que o outro enfraquecia se ele comesse demais. E, aos poucos, vagou por todos os caminhos mordiscando, aqui e ali, músculos, veias, pulmões, intestinos, fígado, pâncreas, faringe, medula, esôfago, roendo cantinhos de ossos, fêmures, calcanhares, apreciando nervos, chupando sangue, lambendo salivas, degustando glândulas lacrimais, mastigando cartilagens até voltar saciado, para dormir sossegado, no meio dos miolos riscados de cicatrizes ancestrais.

Um dia, já muito gordo e glutão, passou dissimulado perto do coração e fuçou suas bordas, vasos e artérias batendo o focinho sensível no órgão que disparou. Agressivo, mordeu-o um pouco mais forte e sentiu que o corpo que o mantinha, aos poucos se debatia, com a proximidade da morte.

Desprezou então o órgão delicado e partiu para outros bocados, com sua fúria incontida, destruindo com desenvoltura tudo o que viu pela frente. E foi crescendo cada vez mais, ficou enorme e passou a ocupar, com seu próprio corpo, os ocos que no outro corpo para ele se ajustavam. Já não cabia mais só na cabeça e então suas asas vestiram os braços vazios, suas patas longas calçaram as pernas anfitriãs e sua barriga gorda se encaixou no tórax inflamado. Sua própria cabeça mantinha-se agora, justa, na outra cabeça, e seu focinho imundo surgia, às vezes, do nada, entre os beiços da boca vazia farejando o mundo sob seus pés. E seus olhos brilhavam estranhos, alucinados, onde antes admiravam as coisas outros olhos castanhos.

E ao sentir que dominava o outro e tinha sua própria vida devorou o que restava. Varou as visões da órbita ocular, trespassou os segredos da cavidade auricular e saboreou da língua os mais notórios discursos. Apanhou os bagos, sugou as raízes dos cabelos, o cérebro e as conexões nervosas, as fezes asquerosas, os pensamentos radicais, roeu as rótulas, devastou os joelhos, as juntas desconexas, os artelhos, a bacia, a clavícula, bebeu a urina, o esperma, tragou o baço, a coluna inteira, a cerviz, os sonhos, a respiração e os buracos do nariz.

Manipulando as asas e as unhas pontiagudas foi colhendo os últimos frutos do ser companheiro até chegar, absoluto, ao coração fatigado.

E trouxe à boca o órgão macio deixando vazio, por segundos, o peito onde, de um outro jeito, seu coração logo pôs-se a bater.

E então completo e cruel soltou-se, desprendeu-se da casca, passou a existir e foi fingir seu papel no palácio assombrando as pessoas com seus urros, com suas esporas de galo, com suas penas gosmentas, com seus cascos de burro, com seu enorme falo, com as unhas cinzentas, com seus olhos vermelhos de espionar em noite escura, com as orelhas pontudas de ouvir diálogos incertos e com o focinho aberto de dentes agudos socando e ferindo, profundamente, aqueles que ousaram pisar seu caminho. Aterrorizadas, as pessoas correram. E esconderam seus livros, seus discos, seus segredos e sua indignação.

Caída ficou a pele do corpo. Amarrotada em seu desespero. Rota pelo abandono. Parcos fios de cabelo. Quebrados contornos. A lembrança indelével da dor. Só uma casca jogada num canto sujo da calçada onde o monstro a largou. Irreconhecível. Então, um sujeito qualquer que passava, fantasiado de amarelo fanático, chutou com desprezo a casca para o lado cantarolando um surrado estribilho. Não sabia que a pele morta, vazia e curtida poderia ter sido, em algum momento da vida, um pedaço do seu próprio filho.

Agliberto Cerqueira
Publicitário pelo Instituto Metodista, aprendiz de farmácia na infância, executivo da indústria automobilística, diretor de agência de promoção e consultor na área de comunicação e marketing. Em 2006 publicou o livro de contos "O quá quá quá do cisne preto - Um passeio ao som do rádio". Quando não está em consultoria e nem pagando imposto, lê muito, escreve quando possível e toca violão.
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